Desde galinhas a patos e a perús, a frutos e a víveres de toda a espécie, a objectos dos mais vulgares aos mais esquisitos, de tudo o que era prestável à mais insignificante inutilidade, do que se encontrava à mão àquilo que havia sido devidamente acautelado - tudo era subtraído deliberadamente pelos Estudantes e arrastado de qualquer modo para junto do Pinheiro.
Pela manhãzinha, fazia-se o ajuntamento público diante do grande mastro.
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A intenção do ajuntório era avaliar-se da qualidade do desempenho por parte de quantos nessa noite se haviam tornado em "trabalhadores incansáveis". E esse momento constituía, para uns, simplesmente espectadores, motivo de folguedo, e para outros, os prejudicados, as vítimas, motivo de desolação.
Durante essa noite, os Estudantes haviam praticado desacatos de todo o tipo. Por exemplo, misturavam-se entre si tabuletas de médicos, advogados, cabeleireiros, ferradores, anulavam-se fechaduras de portas, colocavam-se em lugares especiais inscrições pateteadas, desviavam-se automóveis do local onde estavam estacionados, assaltavam-se galinheiros, estábulos, casotas de arrumos, espalhava-se lenha pelas ruas, levantavam-se paralelos do chão, etc.
Conta-se que, num dos anos da Segunda Guerra Mundial, os Estudantes colocaram no jardim do Toural um jumento com o nariz metido num funil, acompanhado de um dístico com a inscrição: "Hitler a falar ao mundo !".
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Se na intenção da maioria dos Estudantes não havia qualquer intuito de originar danos ou perturbar a boa ordem, para alguns já assim não acontecia, perpetrando actos que causavam muitos estragos. Havia até, e muitas vezes nem de Estudantes se tratava, quem se guardasse para esta noite para levar a vias de facto vinganças antigas.
Várias vezes teve a polícia de intervir, e até os periódicos da terra, a cada passo, lembravam aos Estudantes que havia limites para tudo, e que não era aceitável excederem-se do modo que às vezes acontecia.
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As origens da Roubalheira poderão ver-se num costume tradicional existente em algumas regiões do país, e também na região de Guimarães, por ocasião das festas do São João, precisamente na "noite das fogueiras".
Descreve assim a tradição Alberto Vieira Braga:
"Juntam-se alguns mocetões e tratam de apanhar pelos lavradores da freguesia o que este deixaram ao sereno, e vá de arrastar toda a cangalhada para o adro da igreja, adornando o cruzeiro, a torre, e as árvores próximas com vasos, trastes e apeirias de toda a casta a que puderam deitar mão ("De Guimarães: Tradições e Usanças Populares", Espozende, 1924, pág. 176-177).
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É compreensível que, em face (de) situações criadas, tenham deixado de se reunir as condições necessárias para que esse número Nicolino continuasse a fazer parte das Festas.
Todo o cidadão tem direito a ser respeitado, assim como os bens que são sua propriedade. E teremos também de concordar, por mais que nos pese a interdição imposta, que não fazia sentido que, a pretexto de uma brincadeira estudantil, se perpetrassem assaltos a habitações e a casas comerciais, se danificassem e destruíssem os bens alheios.
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Seria importante reintroduzir a tradição perdida. Deste modo, ficariam reparados os antigos excessos. A poesia e o Amor ligam perfeitamente com as Festas Nicolinas, conjugam com a tradição, com os Estudantes, com a população de Guimarães.
NOTA: Em 1998 a Comissão de Festas recuperou o número das Roubalheiras, tendo-o realizado em dia secreto - para evitar aproveitamentos - e com o auxílio da Polícia Municipal. Os bens foram depositados no largo do Toural onde, pela manhã, os proprietários os foram reaver, mediante a apresentação de uma senha que os Estudantes haviam deixado nos locais "visitados".
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